sábado, 31 de outubro de 2015

A Criatura

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Agora estou aqui, escondido neste armário, tentando passar despercebido pelas criaturas. Estou tentando não pensar nelas, não sentir medo, mas não consigo. Acredito que agora eu só possa escrever como tudo isso aconteceu e esperar que, depois que eu for morto, alguém encontre este meu relato e faça algo para deter essas criaturas. Realmente espero que alguém consiga descobrir o que são e como detê-las.
Tudo começou quando acordei em mais um dia de minha vida. Levantei, ainda cambaleando de sono, e vi. Vi algo parecendo um cão preto e magrelo, mas eu não tinha um no meu apartamento, e nunca ouvi falar em um que andasse pelas paredes. Entretanto, não tomei susto. Estava tão envolvido pelo sono recém finalizado que só fiquei parado ali, no meio da sala, vendo aquela criatura parada na parede, como se a gravidade surtisse efeito diferente nela, ou como se ela não se importasse com tal lei da física.

Depois de um tempo, já mais desperto, fui em direção à criatura, enquanto a via começar a andar pela primeira vez, nas paredes. Talvez eu estivesse pensando que fosse um sonho, ou simplesmente porque sou deveras curioso, mas nem pisquei ao me aproximar daquilo. E foi só quando aquilo olhou para a minha pessoa, que eu senti o peso da realidade, dei um grito e bati naquilo com o maior objeto que pude alcançar no momento.

A criatura foi ao chão depois que bati nela, para depois ir para a cozinha. Corri em direção a ela tentando acertá-la novamente e esmagá-la, como se fosse uma barata miserável. Desejando que, ao esmagá-la, tudo aquilo terminasse. Mas quando eu a encurralei, a criatura abriu sua grotesca boca e falou no bom e velho português comigo. Naquele instante, senti mais medo do que em toda a minha vida.

- Que medo delicioso estou sentindo. Faz tempo que não como tanto. Chego a estar farto.

Desesperado, pulei em cima da criatura para que eu não precisasse mais ouvir aquela voz nojenta. E a criatura me mordeu! Nem pensei na possibilidade de ela ter me infectado, e corri para alcançar a besta que fugia pela janela. Cheguei a tempo de vê-la se rastejando pelo chão do térreo e arrancando gritos, desmaios e correrias dos que ali estavam.

Desci as escadas correndo, só pensando em eliminar aquela vil criatura da face da Terra. Com prazer, pude vê-la se rastejando, claramente sem força, pelas redondezas de meu prédio. Não havia mais um pingo de medo em mim, só raiva. Toda a raiva que senti pelo que havia perdido, pelo que não pude ter, por todas as minhas frustrações, estava descontando naquilo. E após a criatura não conseguir mover mais um músculo sequer, percebi que estava meio esverdeada, com algo que supus ser seu sangue, mas não consegui identificar se estava dentro ou fora de sua pele.

Depois, pude carregá-la, com a ajuda de um vizinho, para levá-la a algum lugar que ficasse presa. Fiquei muito aliviado por tudo isso finalmente estar acabando, e já pensava o que podia fazer para passar mais um domingo tranquilamente em meu apartamento, quando vi outras duas criaturas quase idênticas àquela, com o mesmo tom esverdeado nos ombros. Mas devo confessar que ainda me pergunto o que me fez gritar e sair correndo desesperado dali, assim que as vi: o fato de mais pesadelos vivos aparecerem ou terem saído do elevador quebrado, trancado por fora já fazia uma semana?

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Filtro de Percepção

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É engraçado como as coisas são guardadas, como se fossem escondidas, em lugares tão à vista, porém, não à nossa vista. Nossa vista tão calejada de objetos, cores, formas... Uma vista que acaba tendo vários pontos cegos, e ânsias tão inesperadas de novidades, de algo que se destaque... E quando buscamos simplesmente procurar aquilo que queremos, sem nos importar que seja novo ou velho, acabamos por descobrir quantas formas, sons, cores, cheiros, tatos e gostos existem naquilo que nem havíamos percebido, naquilo que era um filtro de percepção para nossa tão calejada vista.

Encontrei um livro tão singelo de um autor, e publicado por um projeto que nem fazia ideia de que existia. Um concidadão meu, Renato de Oliveira Prata. E aqui deixo um poema dentre tantos que se encontram no livro Sob o cerco de muros e pássaros...



segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Acreditar na verdade é destruir as possibilidades...

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Um homem decidiu ir estudar com um mestre. Ele dirigiu-se à porta deste mestre.
“Quem é você, que pretende estudar aqui?” perguntou o mestre. O estudante disse ao mestre seu nome. “Isso não é quem você é, apenas como você é chamado. Quem é você, que pretende estudar aqui?” ele perguntou novamente. O homem pensou por um momento, e respondeu: “Eu sou um professor.” “Isso é o que você faz, não quem você é”, replicou o mestre. “Quem é você, que pretende estudar aqui?” Confuso, o homem pensou um pouco mais.
Finalmente, ele respondeu: “Eu sou um ser humano.” “Isso é somente sua espécie, não quem você é. Quem é você, que pretende estudar aqui?” perguntou o mestre de novo. Após um momento de reflexão, o professor respondeu: “Eu sou uma consciência habitando um corpo arbitrário.” “Isso é meramente o que você é, não quem você é. Quem é você, que pretende estudar aqui?” O homem estava ficando irritado.
“Eu sou…” ele começou a dizer, mas não conseguia pensar em mais nada para falar, então se dispersou. Após uma longa pausa, o mestre respondeu “Então você é bem-vindo aos estudos.”
Uma instrução: faça quatro coisas despropositadas a cada dia.
A perda de divindade: a circunferência pratica três comportamentos que causam a perda de divindade.

Consumo: nós consumimos demais porque nós acreditamos nos seguintes dois erros dentro do engodo:

1. Nós não temos o suficiente, ou não existe o suficiente;
2. Nós temos o que temos agora por sorte, e não seremos fortes o bastante mais tarde para obtermos o que precisamos.

A maioria das coisas não são dignas de consumo.

Preservação: nós preservamos as coisas porque acreditamos que somos fracos. Se as perdermos, não seremos fortes o bastante para ganhá-las novamente. Esse é o engodo.

A maioria das coisas não são dignas de preservação.

Aderência: nós seguimos o dogma para que possamos pertencer ao grupo e estar certos. Ou... nós seguimos a razão para que possamos pertencer ao grupo e estar certos.

Não há nada sobre o que estar certo. Pertencer ao grupo é a morte.

São os comportamentos de consumo, preservação e aderência que nos fazem perder nossa primalidade e, portanto, nossa divindade.

Alguma sabedoria: junte grandes riquezas. Nunca fique apegado ao que você possui. Esteja preparado para destruir tudo o que você possui.

Uma instrução: programe sua mente. Programe a realidade.

Durante uma lição, o mestre explicou o eu: “O eu é a voz da circunferência,” ele disse. Ao ser questionado por um estudante sobre o que isso queria dizer, o mestre disse: “É uma voz dentro da sua cabeça.”

“Eu não tenho uma voz dentro da minha cabeça,” pensou o estudante, e ele ergueu a mão para falar ao mestre. O mestre interrompeu o estudante e disse: “A voz que acabou de dizer que você não tem uma voz em sua cabeça, isso é o eu.” E os estudantes foram iluminados.

Uma instrução: questione todas as coisas; Descubra a verdade dentro de você; Siga a sua verdade; Não imponha nada aos outros.

Isso foi uma reprodução de Koans e traduções espalhadas pela internet, de autoria desconhecida, atribuídas à organização Cicada 3301.